a boieira do Norte do Brasil

 

BOEIRA. Essa é não só a profissão, mas a missão de Rosiane do Socorro Gomes da Silva, de 51 anos.

 

Herdeira de saberes transmitidos por mães e avós, Socorro é uma das guardiãs da culinária tradicional amazônica e, em entrevista exclusiva à Rede Food Service, revela como, com apenas o ensino médio completo, mantém viva a gastronomia do Norte do Brasil. “Boieira é uma pessoa que faz a boia. Os meus avós e meus pais não chamavam a comida de comida, mas sim de boia. Por isso, boieira”, explica.

 

Usada há décadas na oralidade popular, a palavra e profissão de boieira carrega mais do que um significado culinário. Ela representa um modo de viver, trabalhar e alimentar pessoas. Assim, historicamente, boieiras são as mulheres responsáveis por preparar a comida cotidiana, aquela que sustenta o corpo, a rotina e a cultura de uma região.

 

No Norte do Brasil, entretanto, esse ofício se tornou o pilar da identidade gastronômica, algo vivo até hoje por meio de Socorro e tantas outras boieiras que sustentam essa peculiar ‘vida de chef’.  “Os Chefs de Cozinha têm técnicas, criam pratos e sabem como harmonizar os ingredientes. Já as boieiras não têm muita técnica, mas tem conhecimento, porque a maioria aprendeu com a mãe ou avó e não gosta de mudar a receita”, sinaliza Socorro.

 

Nesse contexto, QUE TAL CONHECER MAIS SOBRE A ROTINA DE BOIEIRA DE ROSIANE DO SOCORRO?

 

Confira na sequência:

 

  • QUEM É ROSIANE DO SOCORRO?
  • FORMAÇÃO E EXPERIÊNCIAS: A MISSÃO QUE VEM DE FAMÍLIA
  • ROTINA COMO BOIEIRA
  • DESAFIOS, METAS E SONHOS COMO BOIEIRA
  • COMO É SER BOIEIRA NO NORTE DO BRASIL
  • VISÃO DO MERCADO FOOD SERVICE COMO BOIEIRA
  • MOMENTOS INESQUECÍVEIS COMO BOEIRA

 

QUEM É ROSIANE DO SOCORRO?

 

Rosiane do Socorro alega que o que mais te caracteriza é “a alegria, ser guerreira e, principalmente, o prazer de cozinhar não para ‘a Socorro’ ser a melhor e sim para fazer o melhor para os clientes”, assinala.

 

Boeira desde muito nova, ela divide que acredita que a Rosiane do Socorro pessoa e a Rosiane do Socorro profissional se misturam, já que “ser boieira é herança, mas, principalmente, amor e respeito pela nossa ancestralidade. Ou seja, é você respeitar a história do prato e não mudar, mas você pode melhorar. E, inclusive, algumas de nós não têm herança, mas se tornaram excelentes boieiras”, pontua.

 

Rosiane do Socorro – Foto: Divulgação

 

FORMAÇÃO E EXPERIÊNCIAS: A MISSÃO QUE VEM DE FAMÍLIA

 

Como já adiantado, Rosiane do Socorro estudou apenas até completar o Ensino Médio, sendo que as suas experiências não nasceram de um sonho romântico, mas da urgência da vida.

 

Afinal, após a morte do pai, a sua mãe ficou sozinha com sete filhos e grávida do oitavo. Assim, para sustentar a família, encontrou no Ver-o-Peso, o famoso e histórico mercado público em Belém, no Pará, uma forma de sobrevivência. “Ela foi trabalhar no Ver-o-Peso vendendo peixe assado de brasa e feijão com mocotó. E, quando eu tinha 19 anos, eu fui trabalhar com ela. Dessa forma, eu fui ficando”, conta.

 

A boieira compartilha também que, em 2006, ela foi convidada para participar do Festival Ver-o-Peso da Cozinha Paraense. “Quando eu cheguei no mercado de peixe e vi ele todo ornamentado e os Chefs participantes com aqueles pratos maravilhosos, eu fiquei apaixonada e pensei: é isso que eu quero. Assim, eu comecei a fazer cursos de Gastronomia e não parei mais. Lembro, inclusive, essa data como se fosse hoje: 30 de abril de 2006”, ressalta.

 

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ROTINA COMO BOIEIRA

 

Atualmente, Socorro trabalha em seu box no Ver-o-Peso de terça a sábado preparando refeições completas e os conhecidos pratos prontos (PF’s), sendo a maior parte destinada à entrega e o restante vendido diretamente no local.

 

ROSIANE DO SOCORRO: a boieira que mantém viva a gastronomia do Norte do Brasil
Rosiane do Socorro – Foto: Divulgação

 

De acordo com a boieira, a sua rotina é intensa e exige resistência, pois “é cansativa, mas muito prazerosa. E é cansativa porque eu saio de casa cedo e levo quase duas horas para chegar no Ver-o-Peso, uma vez que eu moro longe e tem muito engarrafamento”, compartilha.

 

DESAFIOS, METAS E SONHOS COMO BOIEIRA

 

Com um dia a dia no qual o enfrentamento de longas jornadas, espaços reduzidos e infraestrutura limitada é uma realidade, Socorro confessa que, entre os principais desafios de ser uma boieira, são as condições físicas do seu trabalho no Ver-o-Peso. “O meu principal desafio é trabalhar no espaço pequeno e a cobertura que é quente demais,” diz.

 

Ainda assim, ela segue traçando metas. “A minha meta é atender o maior número de clientes que eu puder”, afirma.

 

Assim como, os sonhos da boieira vão além do mercado Ver-o-Peso. “O meu sonho é ter um espaço maior, onde eu possa atender os meus clientes com mais conforto, fazer todos os pratos que eu aprendi e viajar pelo Brasil inteiro levando a nossa culinária para quem não conhece”, almeja.

 

COMO É SER BOIEIRA NO NORTE DO BRASIL

 

Para Rosiane do Socorro, ser boieira no Norte do Brasil vai muito além de cozinhar. É preservar a origem dos pratos e respeitar a ancestralidade. “Nós não mudamos a maneira que os nossos pratos tradicionais são feitos”, endossa.

 

ROSIANE DO SOCORRO: a boieira que mantém viva a gastronomia do Norte do Brasil
Foto: Divulgação

 

“Pode até o prato de uma boieira sair mais gostoso do que o da outra, mas são os mesmos ingredientes e a mesma maneira de fazer para não perder a origem do prato”, ressalta.

 

A boieira reforça ainda que, inclusive, é esse compromisso que transforma as boieiras em verdadeiras guardiãs dos sabores regionais, sendo elas as responsáveis por manter viva a memória gastronômica do país. “O nosso Estado é muito rico e nós temos tudo o que precisamos para fazer pratos saborosos e criativos. Mas, infelizmente, o preconceito ainda existe em relação à nossa culinária e as pessoas falam mal sem conhecer”, lamenta.

 

MOMENTOS INESQUECÍVEIS COMO BOEIRA

 

Por fim, Rosiane do Socorro garante que a ‘vida de chef boeira’ tem mais coisas boas do que ruins, incluindo momentos inesquecíveis como quando ela teve a oportunidade de viajar para São Paulo, capital, para fazer uma capacitação no restaurante da Chef Morena Leite. “O encerramento desse curso foi um jantar só com ingredientes do Norte”, realça.

 

Além disso, a boieira recorda também de uma viagem para Santa Catarina, “quando vendemos tacacá em uma hamburgueria e todos acharam diferente, mas gostoso. E, em setembro do ano passado, eu passei pela experiência de ver as pessoas falaram que o muçuâ de butiquim que eu fiz estava igual o do Chef Paulo Martins, o que me deixou muito feliz”, comemora.

 

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Fonte: Rede Food Service

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