2ª maior reserva, mas pouco explorada; Brasil perderá oportunidade em terras raras?

O Brasil vive uma contradição estratégica no mercado global de terras raras: embora detenha 23% das reservas mundiais, sendo a 2ª maior do planeta, é responsável por menos de 1% da produção, permanecendo praticamente ausente das cadeias globais que abastecem setores como veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos. Essa é a avaliação do Bank of America (BofA) em relatório chamado: “Brasil: terras raras – uma oportunidade rara”.

Segundo o relatório, a China continua dominando a separação e o refino — as etapas mais críticas e tecnicamente complexas da cadeia. O país asiático não apenas responde pela maior parte da produção global de óxidos de terras raras, como detém a totalidade da separação dos elementos mais valiosos, os chamados HREE (heavy rare earth elements). Essa concentração garante à China farta vantagem na fabricação de ligas e ímãs permanentes, insumos essenciais da transição energética.

Enquanto isso, os analistas Caio Ribeiro, David Beker, Natacha Perez e Gustavo Mendes, que assinam o relatório, destacam que o Brasil possui uma das maiores reservas do mundo — cerca de 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras — impulsionadas principalmente por depósitos de argilas iônicas, cujo processamento é mais simples, barato e ambientalmente favorável em comparação às rochas duras exploradas por países como Austrália e Estados Unidos.

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Esses depósitos contêm elementos de alto valor estratégico, como Disprósio (Dy), térbio (Tb), neodímio (Nd) e praseodímio (Pr), fundamentais para a indústria de ímãs permanentes. Mas, apesar das vantagens geológicas, o país avança pouco na geração de valor: escoa sobretudo materiais brutos e importa compostos mais elaborados — muitos deles da própria China.

Estrangulamentos da indústria

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A análise do BofA aponta para uma série de limitações que explicam o atraso. Em um primeiro momento, o financiamento restrito – as empresas não podem utilizar direitos minerários como garantia, o que encarece e limita o acesso a crédito.

Além disso, há fragmentação regulatória e ausência de estratégia nacional. Isso porque faltam políticas que conectem mineração, separação e manufatura.

Também há dependência tecnológica externa: o Brasil não possui capacidade industrial para separar ou refinar materiais em escala.

Mas há sinais de progresso: os projetos começam a avançar para fases piloto e de desenvolvimento, com destaque para Serra Verde. A captura de valor depende de: expandir capacidade de separação e refino, atração de capital, sequenciamento adequado de projetos e política industrial coordenada.

Em 2025, o país registrou exportações recordes em metais raros, impulsionadas pelo início das operações da Serra Verde — hoje o único empreendimento de escala comercial no setor. Ainda assim, o salto não altera o quadro estrutural: o Brasil continua importador líquido de compostos de terras raras.

Assim, o BofA avalia que o “Brasil tem uma oportunidade rara” — mas ainda está longe de ser aproveitada em sua plenitude.

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Fonte: Info Money

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